Final N.. 3
Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem
seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que
Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem dispostos a
obedecerem suas leis.
A edificação da cidade foi finalmente concluída, e Salém revelou-se formosa
como uma noiva adornada, à espera de seu esposo.
Assentado em seu trono, Adonias examinava os numerosos pretendentes que chegavam de
todas as partes, desejosos em ser súditos daquele reino. Aqueles que,
prometendo fidelidade às leis eram aprovados, recebiam três dotes do rei:
o direito a uma mansão, vestes de linho fino e um
instrumento musical no qual deveriam praticar.
A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias
convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer
da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo:
- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados,
nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que
permanecerem leais, progredindo na prática das
leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz.
Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões serão banidos pelo juízo.
As palavras do rei levaram todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se
com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são
as raízes de todos os males.
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Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque.
A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado haviam sido sua
inspiração para a edificação de seu reino.
Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada.
Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos.
Este plano, ele o manteria em segredo até o momento devido.
O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito quemado
príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma
Salém vitoriosa
.
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Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de
ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho.
Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa
pessoa a quem desejava honrar.
Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros,
Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era,
encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua
face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado
aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia
fiel do príncipe, chamava-se Samael.
Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde foi
recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre
os quais o direito de estar sempre ao seu lado.
Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o
qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o
aclamaram com alegria, acreditando ser ele o próprio príncipe.
Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se
Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai.
No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de
residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das
virtudes que coroavam o amado príncipe.
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Salém crescia em felicidade e paz. Com alegria, os súditos reuniam-se a
cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes
composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz.
Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa,
sobressaía aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão
do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos,
meditando sobre as leis do pergaminho. Com admiração, o súdito honrado via o
filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções.
As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor.
Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe,
além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o
alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de
seu íntimo.
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Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali
todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no
pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações.
Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes
entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael.
Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos
aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém
eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o
autor daquelas doces canções.
Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos
mantidos até então em segredo. Com voz pausada, disse-lhes:
- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse
dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras,
como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e
instrumentos hoje são maiores.
Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:
- Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo
fiéis como até aqui, sereis honrados, confirmados como súditos deste reino de paz.
Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos
traga muita tristeza e sofrimento.
As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se,
indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?!
Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes
num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes
seu grande segredo:
- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o
meu filho, a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.
A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes
revelara todo o seu plano, por isso, pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:
- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio. Seu
cetro, simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.
Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe, prostrando-se aos pés de seu pai,
chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando
ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa.
Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:
- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro
depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o
guardião da honra desse reino triunfante.
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Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia.
Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória.
Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser
dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do
pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição.
Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando
com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por
conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira
estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.
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Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em
homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos
louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto
do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano.
Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?!
Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade.
Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe,
recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções.
Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam
os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria
o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo
reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa “vitória”
procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.
Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael
aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro,
onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam os louvores de uma Salém vitoriosa.
Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens.
As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao
coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e
humildade do pergaminho.
Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais
revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler
compassadamente os seguintes parágrafos:
- O reino de Salém será firmado sobre a humildade, pois esta virtude é a base de toda
verdadeira grandeza.
A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma
criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações, iludindo-a como se as
mesmas fossem de infinito valor.
A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço aos
semelhantes.
Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que
para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:
- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito
acima deste pergaminho, cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses
anos de prova.
A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não
coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós
dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim.
Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.
O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura.
Como libertá-lo desse caminho de morte?!
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Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com
paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis
não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz.
Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas
palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso.
Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de
Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo.
Os dias que seguiram-se à libertação foram cheios de realizações. O príncipe revelava-se
ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir
triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de
conhecer o cetro que estava sendo moldado.
Num momento de descuido, Samael, que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que
seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez
desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça
lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde,
no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.
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De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a,
qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a
formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono,
tendo nas mãos o cetro precioso. Todos o aclamariam como o libertador da
opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer.
Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista.
Samael decidiu agir subtilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho
um empecilho à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade,
revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos.
Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das
glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade.
Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o
como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que, em meio
àquela atmosfera de júbilo e gratidão, uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras
da qual muitos poderiam cair por descuido.
Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver
exercido naqueles seis anos, prestes a findarem, uma missão de prova. Em sua lógica, contudo,
procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima
daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar
abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho seria um entrave à concretização da
verdadeira liberdade.
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As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de
muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos
seria selado. Um terço dos habitantes, seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora,
em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados.
Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos
para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições.
Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande
importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a
prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam,
dando lugar ao caos.
Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo
de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz
cheia de bondade, ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no
caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou. Até mesmo Samael ficou a
princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira,
o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se
em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não
a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.
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Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para
uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom,
que fica fora dos muros de Salém
.
Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, começou a falar-lhes de
seus planos de vingança e traição:
- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir
de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como
rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.
Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações
sobre a maneira de agirem a partir daquela data:
- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que
chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação.
À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e,
juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra.
Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos.
Acabaremos então com o pergaminho e com todos
aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.
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Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz. Samael, fingindo fidelidade,
estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas
composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael,
da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza
dos princípios aos quais repugnavam.
Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação,
ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente
para aquela ocasião. Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar
Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia
.
Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria
o golpe da traição.
Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que
o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe
todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro.
Contemplando-o, o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o
selo do domínio. Compreendeu que aquele que o possuísse teria nas mãos o reino
de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso.
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O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota.
Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do
príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação.
Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso.
Como ansiara por aquela noite!
Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória, revisavam sob a luz de
candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se
que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus
últimos preparativos para desferirem o golpe.
À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores
abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom,
onde esperariam pelo seu novo rei.
Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem
ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal,
dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro.
Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo,
dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:
- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.
Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:
- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o
alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.
O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono
de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os
momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde, com as mãos trêmulas,
apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde,
deixando o estojo em seu devido lugar. Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o
momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.
Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus
seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:
- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a
terra e o mar. A minha força está nas trevas, pois através delas o conquistei.
Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às
cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.
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O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur). Despertando
de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação.
Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas,
foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro
de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva
rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.
Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento.
Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul,
levando consigo seus instrumentos musicais.
Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos.
Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava a face mais querida de seu amigo Samael.
Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca
infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael. Sua voz,
contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.
Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à
mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em
sua glória, através de conselhos sábios. Recordou aqueles dias que seguiram à
sua recuperação. Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair!
Levando-o a pressentir a tragédia, vieram-lhe à lembrança as indagações de Samael
sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade.
A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite,
deu-lhe a certeza de que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de
traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem
dedicara tanto amor.
Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo.
Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver
a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos do rebelde
Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis.
Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe
guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.
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Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da escadaria,
sendo seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a expectativa de ver
morrer nos lábios dos fiéis, naquela manhã, o seu alegre canto, devido ao golpe da traição.
Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono que esperava
pelo jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a um arranjo de flores,
o pergaminho das leis. Junto dele podia-se ver a linda coroa, feita de ouro e pedras
preciosas, bem como o estojo daquele cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.
Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam considerados dignos de herdar
aquele reino de paz. Aguardavam agora o momento da coroação, quando o seu
novo rei os regeria de seu trono com seu cetro precioso, num cântico triunfal.
Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a seu pai, que
o recebeu com um carinhoso abraço. O momento era deveras solene.
As hostes silenciaram-se na expectativa da coroação. O estojo seria aberto e todos
testemunhariam a exaltação do querido príncipe.
Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o estojo,
abrindo-o cuidadosamente. Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu semblante deu
lugar a uma expressão de indizível preocupação e tristeza, pois naquele cetro selara o
destino daquele reino de paz.
Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de tantos amigos
que deveriam estar com eles naquele momento, Melquisedeque consolou-os
com a promessa de que buscaria o cetro. Inconscientes dos riscos e perigos que
aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos
despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.
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O alvorecer daquele dia que seria o da coroação alcançou os rebeldes distantes de Salém, a
caminho das cidades da planície. Naquele manhã, Samael encheu-se de fúria ao ver que
o precioso alaúde estava adornado com inscrições das leis contidas no pergaminho.
Tomando uma pedra pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras
de amor e justiça. Suas harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre o seu
bojo ferido, mas continuava sendo precioso, pois sobre ele jazia selado o domínio
de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o poder.
Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a seus seguidores
que prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até Sodoma, onde permaneceria
por dois dias, juntando-se depois a eles.
Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou pelas ruas
estreitas sem ser notado, até encontrar uma casa isolada sobre uma elevação.
Fazendo do cetro sua arma, invadiu a casa matando seus moradores, enquanto dormiam.
Apossou-se dessa maneira daquela residência onde, solitário, maquinaria seus planos
para a tomada de Salém.
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O entardecer daquele dia que seria o da coroação alcançou o filho de Adonias a
caminhar pelo pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos carregados de tristeza e
anseio voltam-se para o solo, em busca dos rastros dos rebeldes. A lembrança da
ingratidão daqueles a quem tanto amava o fez chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos
lampejos daquele sol poente, assemelham-se a gotas de sangue jorrando de um coração ferido.
Ele chorava não por causa dos perigos que lhe sobreviriam naquela fria noite, mas
pela infeliz sorte daqueles que haviam trocado a paz de Salém pela violência
daquelas cidades da planície.
O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as tentações, haviam
permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro, e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.
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Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado ao lado do caminho,
raiou a luz de um dia que seria decisivo.
Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão próximo do cetro de
sua amada Salém fez com que se esquecesse de toda a fadiga, abreviando seus passos rumo ao
desafio.
Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao ouvir ruídos
espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o egoísmo e a cobiça que ali
dominavam todos os corações, fazendo-os explodir na orgia de uma maldade sem fim
.
Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse pensamento o fez
deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou a fronte em indizível luta íntima.
Era tentado a recuar, mas lutava com todas as forças de sua alma contra esse
pensamento de fracasso.