segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

PERGAMINHO 4 O TRAIDOR

Final  N.. 3

Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem
 seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que 
Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem dispostos a
 obedecerem suas leis.





A edificação da cidade foi finalmente concluída, e Salém revelou-se formosa
 como uma noiva adornada, à espera de seu esposo. 
Assentado em seu trono, Adonias examinava os numerosos pretendentes que chegavam de 
todas as partes, desejosos em ser súditos daquele reino. Aqueles que, 
prometendo fidelidade às leis eram aprovados, recebiam três dotes do rei:
 o direito a uma mansão, vestes de linho fino e um 
instrumento musical no qual deveriam praticar. 


A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias
 convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer 
da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo: 

- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados,
 nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que
 permanecerem leais, progredindo na prática das 
leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz.
 Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões serão banidos pelo juízo. 
As palavras do rei levaram todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se
 com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são 
as raízes de todos os males. 

 --------******-------- 

Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque.
 A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado haviam sido sua 
inspiração para a edificação de seu reino. 

Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada.
 Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. 
Este plano, ele o manteria em segredo até o momento devido. 



O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito quemado 
príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma
 Salém vitoriosa
 ---------******--------- 

Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de
 ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho.
 Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa
 pessoa a quem desejava honrar. 

Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros,
 Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, 
encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua
 face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado
 aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia 
fiel do príncipe, chamava-se Samael. 

Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde foi
 recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre 
os quais o direito de estar sempre ao seu lado. 
Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o
 qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o
 aclamaram com alegria, acreditando ser ele o próprio príncipe. 

Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se
 Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai. 
No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de
 residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das 
virtudes que coroavam o amado príncipe.  
  

 ---------*****-----


Salém crescia em felicidade e paz. Com alegria, os súditos reuniam-se a
 cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes
 composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz. 

Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa,
 sobressaía aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão
 do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos, 
meditando sobre as leis do pergaminho. Com admiração, o súdito honrado via o 
filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções.
 As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor. 

Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe, 
além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o 
alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de 
seu íntimo. 

 --------******-------- 

Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali
 todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no 
pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações. 

Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes
 entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael. 

Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos 
aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém 
eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o 
autor daquelas doces canções.

Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos
 mantidos até então em segredo. Com voz pausada, disse-lhes: 

- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse
 dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras,
 como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e
 instrumentos hoje são maiores. 

Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade: 

- Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo
 fiéis como até aqui, sereis honrados, confirmados como súditos deste reino de paz.
 Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos
 traga muita tristeza e sofrimento. 

As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se, 
indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?! 

Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes
 num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes 
seu grande segredo: 

- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o 
meu filho, a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.


A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes 
revelara todo o seu plano, por isso, pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:  
  

- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio. Seu 
cetro, simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.

Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe, prostrando-se aos pés de seu pai, 
chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando
 ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa. 

Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo: 

- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro 
depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o 
guardião da honra desse reino triunfante. 

 --------******--------- 

Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia. 
Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória.
 Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser
 dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do 
pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. 
Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando 
com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por
 conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira 
estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça. 


 --------***** --------

Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em
 homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos
 louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto 
do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano. 
Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?! 

Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade. 

Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe, 
recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções.
 Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam 
os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria
 o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo 
reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa “vitória” 
procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria. 

Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael 
aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro, 
onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam os louvores de uma Salém vitoriosa. 
Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens.

As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao 
coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e
 humildade do pergaminho.

Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais
 revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler 
compassadamente os seguintes parágrafos: 

- O reino de Salém será firmado sobre a humildade, pois esta virtude é a base de toda 
verdadeira grandeza. 


A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma
 criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações, iludindo-a como se as 
mesmas fossem de infinito valor. 

A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço aos 
semelhantes. 

Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que
 para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo: 

- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito 
acima deste pergaminho, cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses 
anos de prova.
 A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não
 coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós 
dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. 
Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho. 

O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura. 
Como libertá-lo desse caminho de morte?!

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Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com 
paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis
 não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz. 

Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas 
palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso. 

Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de 
Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo. 

Os dias que seguiram-se à libertação foram cheios de realizações. O príncipe revelava-se
 ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir
 triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de 
conhecer o cetro que estava sendo moldado. 

Num momento de descuido, Samael, que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que
 seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez
 desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça
 lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde,
 no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.

 --------******-------- 

De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, 
qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a
 formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, 
tendo nas mãos o cetro precioso. Todos o aclamariam como o libertador da 
opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer. 
Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista. 

Samael decidiu agir subtilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho
 um empecilho à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, 
revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos. 


Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das 
glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade. 

Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o 
como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que, em meio
 àquela atmosfera de júbilo e gratidão, uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras 
da qual muitos poderiam cair por descuido. 

Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver 
exercido naqueles seis anos, prestes a findarem, uma missão de prova. Em sua lógica, contudo, 
procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima 
daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar 
abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho seria um entrave à concretização da 
verdadeira liberdade. 

 --------*****--------

As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de 
muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos 
seria selado. Um terço dos habitantes, seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora,
 em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados. 

Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos
 para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições.

Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande 
importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a 
prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, 
dando lugar ao caos. 

Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo 
de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz 
cheia de bondade, ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no
 caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou. Até mesmo Samael ficou a 
princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, 
o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se
 em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não 
a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano. 

 ----------******---------- 
Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para
 uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom, 
que fica fora dos muros de Salém
Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, começou a falar-lhes de
 seus planos de vingança e traição:

- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir 
de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como
 rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino. 

Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações
 sobre a maneira de agirem a partir daquela data: 


- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que
 chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação.
 À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, 
juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. 
Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos. 
Acabaremos então com o pergaminho e com todos 
aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo. 

 -------*****-------- 

Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz. Samael, fingindo fidelidade, 
estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas 
composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael, 
da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza 
dos princípios aos quais repugnavam.

Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação,
 ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente
 para aquela ocasião. Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar
 Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia
Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria
 o golpe da traição. 

Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que
 o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe
 todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro.
 Contemplando-o, o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o 
selo do domínio. Compreendeu que aquele que o possuísse teria nas mãos o reino
 de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso. 

 -------******-------- 

O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota.

Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do 
príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. 
Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso.
 Como ansiara por aquela noite! 

Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória, revisavam sob a luz de 
candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se
 que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus
 últimos preparativos para desferirem o golpe.

À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores
 abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom,
 onde esperariam pelo seu novo rei. 

Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem 
ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, 
dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro. 

Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo, 
dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo: 

- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio. 

Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe: 
- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o 
alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.

O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono
 de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os
 momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde, com as mãos trêmulas,
 apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, 
deixando o estojo em seu devido lugar. Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o
 momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.

Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus
 seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando: 

- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a
 terra e o mar. A minha força está nas trevas, pois através delas o conquistei. 

Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às 
cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.

 --------*****-------

O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur). Despertando
 de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação.
 Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas,
 foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro 
de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva
 rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião. 

Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento. 
Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, 
levando consigo seus instrumentos musicais. 

Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos.
 Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava a face mais querida de seu amigo Samael. 

Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca 
infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael. Sua voz, 
contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.

Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à
 mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em 
sua glória, através de conselhos sábios. Recordou aqueles dias que seguiram à 
sua recuperação. Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! 
Levando-o a pressentir a tragédia, vieram-lhe à lembrança as indagações de Samael 
sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade.
 A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite,
 deu-lhe a certeza de que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de
 traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem 
dedicara tanto amor.

Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo. 
Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver
 a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos do rebelde


Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis. 
Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe
 guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.

 --------*****----------

Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da escadaria,
 sendo seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a expectativa de ver
 morrer nos lábios dos fiéis, naquela manhã, o seu alegre canto, devido ao golpe da traição.

Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono que esperava
 pelo jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a um arranjo de flores,
 o pergaminho das leis. Junto dele podia-se ver a linda coroa, feita de ouro e pedras 
preciosas, bem como o estojo daquele cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.

Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam considerados dignos de herdar
 aquele reino de paz. Aguardavam agora o momento da coroação, quando o seu
 novo rei os regeria de seu trono com seu cetro precioso, num cântico triunfal. 

 Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a seu pai, que
 o recebeu com um carinhoso abraço. O momento era deveras solene. 
As hostes silenciaram-se na expectativa da coroação. O estojo seria aberto e todos 
testemunhariam a exaltação do querido príncipe.

Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o estojo,
 abrindo-o cuidadosamente. Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu semblante deu
 lugar a uma expressão de indizível preocupação e tristeza, pois naquele cetro selara o
 destino daquele reino de paz.

Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de tantos amigos
 que deveriam estar com eles naquele momento, Melquisedeque consolou-os 
com a promessa de que buscaria o cetro. Inconscientes dos riscos e perigos que 
aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos 
despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.

 --------*****--------

O alvorecer daquele dia que seria o da coroação alcançou os rebeldes distantes de Salém, a 
caminho das cidades da planície. Naquele manhã, Samael encheu-se de fúria ao ver que
 o precioso alaúde estava adornado com inscrições das leis contidas no pergaminho. 
Tomando uma pedra pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras 
de amor e justiça. Suas harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre o seu
 bojo ferido, mas continuava sendo precioso, pois sobre ele jazia selado o domínio 
de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o poder. 

Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a seus seguidores
 que prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até Sodoma, onde permaneceria
 por dois dias, juntando-se depois a eles. 

Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou pelas ruas
 estreitas sem ser notado, até encontrar uma casa isolada sobre uma elevação.
 Fazendo do cetro sua arma, invadiu a casa matando seus moradores, enquanto dormiam. 
Apossou-se dessa maneira daquela residência onde, solitário, maquinaria seus planos 
para a tomada de Salém. 


 --------*****---------  
  
O entardecer daquele dia que seria o da coroação alcançou o filho de Adonias a
 caminhar pelo pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos carregados de tristeza e
 anseio voltam-se para o solo, em busca dos rastros dos rebeldes. A lembrança da
 ingratidão daqueles a quem tanto amava o fez chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos
 lampejos daquele sol poente, assemelham-se a gotas de sangue jorrando de um coração ferido.
 Ele chorava não por causa dos perigos que lhe sobreviriam naquela fria noite, mas 
pela infeliz sorte daqueles que haviam trocado a paz de Salém pela violência 
daquelas cidades da planície.

O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as tentações, haviam 
permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro, e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.

 --------*****------- 

Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado ao lado do caminho, 
raiou a luz de um dia que seria decisivo. 

Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão próximo do cetro de 
sua amada Salém fez com que se esquecesse de toda a fadiga, abreviando seus passos rumo ao 
desafio.

Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao ouvir ruídos 
espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o egoísmo e a cobiça que ali
 dominavam todos os corações, fazendo-os explodir na orgia de uma maldade sem fim
.
Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse pensamento o fez 
deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou a fronte em indizível luta íntima.
 Era tentado a recuar, mas lutava com todas as forças de sua alma contra esse
 pensamento de fracasso. 


sábado, 28 de dezembro de 2013

PERGAMINHO 3 Como foi a Vida de Sara transformada.



A vermelho final da ultima publicação

Esse pensamento trouxe-me alívio e esperança. Mas, ao mesmo tempo, comecei a preocupar-me com a possibilidade de chegarem pessoas procurando por elas. Se viessem, eu não poderia negá-las.






Tomado por essa preocupação, permaneci sentado sob o Carvalho de Mambré. Na viração do dia, sobreveio-me um grande estremecimento quando vi ao longe três peregrinos que caminhavam rumo à nossa tenda. 
Comecei a clamar ao Eterno para que eles mudassem de rumo, mas meus clamores não foram atendidos.

 Dominado por uma indizível amargura, corri até eles e, depois de prostrar-me, convidei-os para a sombra. 


Tomando uma bacia com água, passei a lavar-lhes os pés, limpando-os da poeira do caminho. 
Ao ver os pés feridos e calejados daqueles homens, senti compaixão por eles.

 Compreendi que haviam vindo de muito longe, enfrentado perigos e desafios, com o propósito de pegarem em tempo as pérolas.

 Vi que eles eram mais merecedores que eu, Sara e nosso filho prometido. 
Ao lavar os pés do terceiro, meu coração que, até então estava aflito, encheu-se de paz e 
alegria. Imaginava naquele momento, quão terrível seria se aquele terceiro peregrino não houvesse se unido aos dois primeiros naquela caminhada.

 Nesse caso eu seria obrigado a tomar da última pérola, subindo sem minha amada para Salém. Se eu tivesse de passar por essa experiência, a pérola que simboliza a alegria da salvação, se tornaria num símbolo de minha solidão e tristeza, pois a vida 
longe do carinho de Sara, seria para mim o maior castigo, como a própria morte. 
Depois de lavar-lhes os pés, comecei a servir-lhes o alimento que foi especialmente preparado para eles.

 Enquanto os servia em silêncio, fiquei esperando pelo momento em que eles perguntariam 
pelas pérolas. Mas, sem revelar nenhuma pressa, eles falavam sobre a longa caminhada que fizeram, e sobre as cidades por onde haviam passado. Eu perguntei-lhes se conheciam Salém.

 Eles responderam-me afirmativamente, acrescentando que naqueles seis anos, muitas obras haviam sido realizadas naquela cidade, em preparação para uma grande festa que estava para realizar-se dentro de mais um ano, por ocasião da festa de Sukot.

As palavras daquele terceiro peregrino, o mais falante deles, começaram a trazer-me, 
misteriosamente, um sentimento de esperança. Ao olhar para os seus olhos, vi que ele se parecia com Melquisedeque. 

Lembrava-me da última promessa feita pelo rei de Salém, quando o terceiro peregrino 
perguntou-me com um sorriso: 

- Abraão, onde está Sara sua mulher?!

Atônito, perguntei-lhe: 
 - Como você sabe o meu nome e o nome de minha esposa?

O peregrino respondeu-me: 
- Não somente sei o nome de vocês, como também sei que daqui a um ano vocês terão um filho que será chamado Isaque. 

Ao ouvir as palavras do visitante, corri para dentro da tenda a fim de chamar minha esposa, 
para que ouvisse as palavras daquele peregrino. 

Ao vê-la, o peregrino perguntou-lhe: 
- Sara, por que você riu de minhas palavras?

Assustada, Sara, respondeu: 
- Eu não ri, meu Senhor! 
- Não diga que não riu, pois eu a vi rindo dentro da tenda. Afirmou o peregrino. 

Consciente de estar diante de alguém que conhecia o seu íntimo, Sara perguntou-lhe: 
- Quem és tu Senhor?! 

- Eu sou a Chama que se desprendeu do fogo do Altar para estar no jarro que você rejeitou! 
Eu sou o Messias, o Deus que sofre humilhações e desprezo por amor ao seu povo! 

Tendo feito esta revelação, o peregrino estendeu suas mãos sobre a cabeça de Sara para 
abençoá-la. Somente então vi que elas estavam marcadas por cicatrizes semelhantes às do rei de Salém. 

O peregrino, com muita ternura, começou a falar ao coração de minha amada, resgatando-a de sua incredulidade: 

- Sara, você é preciosa aos meus olhos! Todo o seu passado de descrença e infertilidade está perdoado! Tenho para você um futuro glorioso, pois você se tornará mãe de muitos povos e nações! 

Depois de dizer estas palavras, o nobre visitante encaminhou-se para o jarro e, inclinando-se, tomou dele as três pérolas restantes. Dirigindo-se a Sara, entregou-lhe duas pérolas, e disse-lhe: 
- Uma é para você e a outra é para o seu filho Isaque.  

  

Com a vida transformada pelo amor do Eterno, Sara prostrou-se agradecida aos pés daquele 
peregrino que a salvara no último momento. Quando a vi prostrar-se submissa, meu coração por tantos anos aflito, rompeu-se em lágrimas de alegria e gratidão, e caí aos pés de meu Redentor e Rei. 

Depois de consolar-nos com a certeza de nossa eterna salvação, o peregrino entregou-me a última pérola.

 Quando apertei-a em minhas mãos, senti grande luz e paz inundar-me todo o ser, e 
passei a louvar ao Eterno pela certeza de que teria para sempre ao meu lado minha querida Sara e o filho que, segundo a promessa, dentro de um ano nasceria.


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Depois destas coisas, o Eterno despediu-se de Sara e dos pastores que ali se encontravam, e convidou-me a acompanhá-los até o outeiro que fica defronte do vale. Ao chegarmos àquele lugar, o Eterno despediu-se de seus dois companheiros, enviando-os para uma missão especial em Sodoma. 

Do cimo do monte contemplávamos os férteis vales e florestas que, como um paraíso, 
estendiam-se em ambas as margens do rio Jordão, circundando as prósperas cidades, dentre as quais destacavam-se Sodoma e Gomorra. 

Fora sobre aquela colina que, depois da contenda entre os meus pastores e os pastores de Ló, dei-lhe a oportunidade de escolher o rumo a seguir, pois não poderíamos permanecer juntos. 
Atraído pelas riquezas da campina, ele decidiu mudar-se para lá. 
Ao olhar para o meu companheiro que ficara silente desde o momento em que avistamos a 
campina, fiquei surpreso ao vê-lo chorando. Perguntei-lhe o motivo de sua tristeza, e Ele, soluçando, 
respondeu: 
- Este é para mim um dia de muita tristeza, pois pela última vez meus olhos podem pousar 
sobre este vale fértil. Choro pelos habitantes dessas cidades que não sabem que os seus dias acabaram! 


A declaração do Messias trouxe-me à lembrança todos aqueles cativos que haviam sido libertos 
seis anos antes. Infelizmente, quase todos rejeitaram o banho da purificação, retornando imundos 
para suas casas. Unicamente Ló e suas filhas aceitaram a salvação, tomando posse de suas pérolas. 
Pensando numa possibilidade de livramento para aquele povo, perguntei ao Eterno: 
- E se por acaso existir, naquelas cidades, cinquenta pessoas justas; mesmo assim elas serão 
destruídas? 
O Senhor disse-me que se houvesse cinquenta justos, toda a planície seria poupada. 
- E se houver 45 justos? 
- Se houvesse ali 45 justos, todas aquelas cidades seriam poupadas.(11) 
Continuei com minhas indagações até chegar ao número dez. O Eterno disse-me que, se 
houvesse dez justos naquelas cidades, toda a planície seria poupada. 
Torturado por uma indizível agonia de espírito, o Senhor voltou a chorar amargamente, 
enquanto com voz embargada, pronunciava um triste lamento: 

- Sodoma e Gomorra, quantas vezes quis Eu ajuntar os seus filhos, como a galinha ajunta os 
seus pintainhos debaixo das asas, mas você não aceitou minha protecção. Por que você trocou a luz 
da minha salvação pelas trevas deste reino de morte?! Meus ouvidos estão atentos em busca de pelo menos uma prece, mas tudo é silêncio! Minhas mãos estão estendidas, prontas a impedir o fogo do 
juízo, mas vocês recusam o meu socorro! 

Curvando-me ao lado de meu companheiro sofredor, uni-me a Ele na lamentação. Naquele 
momento de dor, tive a certeza de que Melquisedeque também sofria por todos aqueles que haviam 
trocado o amor e a paz de Salém pelas ilusões daquele vale de destruição. 
Depois de um longo pranto, o Messias consolou-me com a revelação de que os seus dois 
companheiros encontravam-se naquele momento em Sodoma, com a missão de salvar Ló e suas 
filhas, livrando-os da morte. Suas palavras trouxeram-me alívio, e prostrei-me agradecido aos seus 
pés.
 ---------***----------
Antes de partir, o Eterno encarregou-me de uma missão, dizendo: 
- Tome um rolo vazio e registre nele a história do vaso e a história de Salém, conforme ouviu 
dos lábios de Melquisedeque. Dentro de um ano, você e todos aqueles que aceitaram a salvação, 
deverão subir à Salém para a festa de Sukot. Naquele dia, entregará ao rei de Salém o jarro, 
oferecendo dentro dele, como presente, o rolo. 

Naquela mesma tarde, em obediência às ordens do Senhor, comecei a registrar a história vivida 
por mim e por meus pastores, desde o momento em que parti rumo ao vale, levando sobre as costas o 
vaso com sua labareda. 

No dia seguinte, o sol já ia alto, quando, ao mencionar a cidade de Sodoma no manuscrito, 
lembrei-me que aquele era o dia de sua destruição. Com o coração acelerado, corri para lá e fiquei 
espantado com o cenário que se estendeu diante de meus olhos: em lugar daquele vale fértil, 
semelhante a um paraíso, havia um deserto fumegante, sem nenhuma vida. No lugar das cidades de 
Sodoma e Gomorra, havia uma cratera, para onde as águas do mar salgado escorriam. 
Abalado ante essa visão de destruição, retornei à tenda com o coração entristecido. 

A lembrança de tantas pessoas que, por rejeitarem o perdão divino, haviam sido consumidas pelo fogo, 
deixou-me profundamente abalado. Nos dias seguintes, não encontrei forças para escrever. Retornei 
outras vezes ao outeiro, com a esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas em lugar do vale 
fértil eu somente conseguia enxergar aquele caos. 

Demorou vários dias para que eu voltasse a ter ânimo para prosseguir com os escritos do rolo. 




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A História de Salém 
 - SEGUNDA PARTE -   (Do Pergaminho)
Esta é a história de Salém, segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de 
Sukot, cinco dias depois do livramento de Ló e suas filhas. 

Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias. Ele possuía muitas 
riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor. 
Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu 
edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria 
Salém, a Cidade da Paz. 
Os súbditos de Salém não empunhariam arcos nem flechas, mas seriam treinados na arte 
musical. Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical, 
para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos formariam uma poderosa 
orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo. 

O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo 
reino, as quais ele escreveu em um pergaminho. Os súbditos de Salém não poderiam mentir, furtar, 
odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o 
mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz. 

As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima 
de tudo, do amor, que é a maior de todas as virtudes. 
Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a 
arquitectar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas. 
Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das 
Oliveiras. 
Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de 
perto e de longe, vinham para conhecer os palácios e as mansões que estavam sendo edificados. 
Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os 
seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de 
coração - aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.