"Oh, Senhor, este cordeirinho revestido
de tão branca lã, com olhar expressivo de tanto amor, se parece Contigo. Eu quero tê-lo sempre junto a mim."
Observando os animais, Adão percebeu que eles desfrutavam de um companheirismo especial.
Via por toda parte casais felizes que viviam um para o outro. Seus pensamentos voltaram-se para o
Seu Companheiro. Olhou ao derredor e ficou surpreso por não vê-Lo. Yahwéh havia Se ocultado
propositadamente, tornando-Se invisível.
Adão sentia-se solitário em meio àquele paraíso. Com quem partilharia sua felicidade e seu
amor? Havia ali os animais, mas eles eram irracionais, não podendo compartilhar de seus ideais.
Nascia em seu coração, ao caminhar solitário naquele entardecer, um desejo ardente de encontrar
alguém que pudesse estar sempre a seu lado.
Enquanto Adão olhava para as distantes colinas na esperança de ver alguém, Yahwéh
apresentou-Se ao seu lado e disse-lhe: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma
companheira."
Adão ficou feliz ao ouvir do Criador essa promessa, justamente no momento em que tanto
ansiava ter alguém para estar sempre visível a seu lado.
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Tomado por um profundo sono, Adão reclinou-se no peito de seu amoroso Criador que, com
carícias, o fez adormecer. Em seu subconsciente surgiram os primeiros sonhos coloridos:
Contempla o olhar meigo de Yahwéh; ouve o som harmonioso da música angelical; descobre as
maravilhas ao derredor: o monte Sião com seu arco-íris; o rio da vida; os prados em flor; os animais
que o saúdam em festa. Repetem-se em seus sonhos as cenas que o envolveram em seu anseio; olha
ao derredor na esperança de encontrar seu companheiro, mas não o vê. Sente-se solitário em seu
sonho, e isso o faz procurar alguém com quem possa compartilhar sua existência. Seu olhar estende
se por campinas verdejantes, divisando ao longe colinas floridas. Enquanto caminha esperançoso,
sente a brisa mansa a afagar-lhe os cabelos macios. Conversa com a brisa: “Brisa, você parece ser
quem tanto procuro; você me afaga os cabelos; beija minha face; você tem o perfume das verdes
matas. Se eu pudesse ver sua face, beijá-la-ia; se eu pudesse tocar os seus cabelos, faria longas
tranças e as enfeitaria com as flores do nosso jardim!”
Após caminhar em sonho pelos prados do paraíso, Adão deteve-se enquanto contemplava a
paisagem ao redor. Admirou-se por não ver o efeito da brisa nos ramos floridos. Mas como, se a
sentia calidamente no rosto? Começou então a despertar de seu sonho. Ainda com os olhos fechados
lembrou-se do momento em que, sonolento, recostara-se no peito de Yahwéh. Seria a brisa o afago de Suas mãos?
Com esta indagação abriu os olhos e emocionou-se ao contemplar uma linda mulher que,
com as mãos perfumadas, acariciava-lhe a face com amor. Era a brisa de seu sonho; a promessa de
um Criador que só queria faze-lo feliz.
Agora Adão era completo, pois tinha Eva, que era carne de sua carne e ossos de seus ossos.
Tomando-a pela mão, Adão convidou-a para um passeio de surpresas inesquecíveis. Mostraria
à sua companheira as belezas de seu lar.
Sensibilizada Eva detinha-se a cada passo, atraída pelas flores que exalavam suaves perfumes;
pelos pássaros que gorjeavam alegres cantos; pelos animais que os seguiam submissos; pela
vegetação de ricos matizes; pelas águas cristalinas do rio da vida que jorravam em cascata do monte
Sião. Tudo no paraíso era perfeito e belo, mas nada se igualava ao ser humano, criado à imagem de
Deus. Voltaram-se um para o ooutro em admiração e carícias. Embalados por esse amor,
permaneceram até o entardecer.
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Com deleite, o jovem casal passou a contemplar o sol poente que, através de rosados raios,
coloria o céu em lindo arrebol. Era o sexto dia que chegava ao seu final, dando lugar às horas de um
dia especial: o sábado. Esse dia, em seu significado, seria solene para todos os súditos de Yahwéh,
pois seu alvorecer traria a vitória para o reino da luz.
O sol, que durante o sexto dia alegrara a natureza com seu brilho e calor, ocultou-se, deixando-a em frias sombras. Os alegres pássaros, silenciando seus trinos, buscavam seus ninhos enquanto os
outros animais se recolhiam. Somente o casal permaneceu imóvel, procurando divisar, no último
lampejo que se apagava no horizonte, a esperança de um novo alvorecer.
Indagavam o sentido das trevas quando, por entre as ramagens, viram um lindo luar, cujos raios
prateados banhavam a natureza em suave luminosidade. Todo o céu estava iluminado pelo fulgor das
estrelas. Admirados, descobriram que a noite somente era escura quando se olhava para baixo.
Adão e Eva em sua inocência não sabiam que aquela noite simbolizava o futuro sombrio da
humanidade. Quando o compreendessem, ficariam confortados ao contemplar o fulgor dos céus: o
luar falaria de esperança e as estrelas cintilantes testemunhariam o interesse das hostes da luz em
aclarar-lhes as trevas morais, dando alento aos pecadores. Mas seriam iluminados apenas aqueles
que, desviando os olhos da Terra, contemplassem os altos céus.
Após contemplar por algum tempo o céu em sua luminosidade, o casal, lembrando-se das
belezas do paraíso, volveu os olhos, buscando divisá-las. Estavam, porém, ocultas em meio às
sombras. Quanto almejavam o alvorecer, pois somente ele traria consigo o paraíso!
Ante o anseio do coração humano, Yahwéh surgiu em meio às trevas, devolvendo ao casal a
alegria de se encontrar novamente num jardim colorido.
Banhados em suave luz, caminhavam agora por prados verdejantes e floridos. o brilho do
Criador despertava a natureza por onde passavam, colorindo e alegrando tudo em derredor. O casal,
admirado, aprendeu que ao lado de Yahwéh poderiam ter um paraíso em plena noite.
Sentindo-se sonolentos, Adão e Eva recostaram-se no colo do amoroso Pai, que os faz
adormecer docemente, esperançosos de um despertar feliz. Deitando-os sobre a relva macia, Yahwéh
elevou-Se indo para junto das hostes contemplativas. Voltaria a manifestar-Se ao alvorecer, fazendo
o casal despertar para o mais solene acontecimento, que reduziria a pó as vis acusações dos inimigos.
A noite escura e fria, através de suas longas horas, parecia zombar da luz. Ofuscaria para
sempre as belezas da criação? Oh, jamais! O sol não recuaria ante a imponência das trevas; surgiria
em breve como um libertador, arrebatando com seus cálidos raios a natureza das frias garras, dando-lhe vida e cor.
Num último desafio, as trevas tornaram-se densas nas horas que antecederam o alvorecer. A
noite arregimentava suas forças para lutar pelo domínio usurpado.
Finalmente, surgiu no leste um lampejo que parecia falar de esperança em um novo dia. O céu
aos poucos tornou-se colorido de um vermelho vivo. As trevas impotentes recuaram ante a força
crescente da luz e foram consumidas em sua fuga. A natureza começou a despertar da longa noite,
refletindo em seu seio os saudosos raios. Flores abriram-se, exalando perfumes de alegria; animais e
aves, silenciados pela noite, uniram as vozes num cântico triunfal em saudação ao alvorecer daquele dia grandioso.
A negra noite chegara ao fim, dando lugar à luz do dia sonhado - dia que para Deus tinha um
sentido especial, pois prefigurava a final vitória de Seu reino sobre o domínio da rebeldia.
Yahwéh agora despertaria Seus filhos humanos que, banhados pela luz de Sua presença,
haviam adormecido na esperança de um alvorecer feliz. Numa marcha festiva, todas as hostes santas,
com cânticos de vitória, acompanharam-nO rumo ao paraíso banhado em luz. Quando já estavam
próximos, o Criador deteve-Se contemplando o casal adormecido, e exclamou suavemente:
"Acordem meus filhos." Sua voz penetrou nos ouvidos de Adão e Eva, despertando-os para a mais
feliz comunhão. Quão depressa raiara a acalentada manhã, trazendo em sua luz o doce paraíso,
perdido naquela noite! Com alegria o casal saudou o divino Criador, unindo-se aos anjos em
antífonas triunfais.
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O Universo vivia um momento deveras solene. Naquela manhã festiva, Yahwéh haveria de
revelar a grandeza de Seu caráter, que é justiça e amor. As acusações de que Seu governo era de
egoísmo e tirania seriam refutadas.
Aos olhos de todas as criaturas racionais do vasto Universo, Deus conduziu o jovem casal ao
monte Sião, lugar do divino trono. Ali, ante o estremecimento das hostes emudecidas, o Criador, num
gesto surpreendente, cobriu o homem com o manto real, colocando sobre sua cabeça a coroa que fora
cobiçada por Lúcifer.
Movidos por profunda gratidão pela suprema honra conferida, Adão e Eva prostraram-se
reverentes, depondo aos pés do Criador sua coroa preciosa, em sinal de submissão. Seguiu-se a esse
gesto humano um brado de vitória que sacudiu toda a Criação. Os filhos da luz, que por tanto tempo
haviam sofrido afrontas e humilhações ante as constantes acusações das hostes rebeldes, exaltaram
em retumbante louvor o Deus bendito, que em Sua obra de justiça desmentira os inimigos, revelando
Seu caráter de humildade, desprendimento e amor.
Tendo constituído o homem como o senhor de toda a criação, Yahwéh, com voz solene, passou
a conscientizá-lo da grandiosidade de sua missão. Como um mordomo fiel, deveria cuidar do paraíso,
mantendo límpida a fonte do rio da vida. As leis da justiça e do amor, fundamentos do reino da luz,
deveriam ser honradas. Como um cetro racional, caberia ao homem, em gesto de reconhecimento e
gratidão, aceitar livremente o governo d'Aquele que o criou. As hostes, que maravilhadas testemunhavam a revelação do desprendimento divino,
compreenderam que o Senhor da Luz não governaria mais o Universo, a não ser com o
consentimento humano. O homem, pela vontade de Yahwéh, fora feito o árbitro da criação; em seu
glorioso ser, feito à imagem do Criador, resplandecia o selo do eterno domínio.
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Após revelar ao casal a infinita honra e responsabilidade de sua missão, o Criador
conscientizou-o do conflito espiritual que se travava pela conquista do domínio universal: Lúcifer,
que por incontáveis eras servira ao divino Rei em Sião, havia sido corrompido pelo orgulho e pelo
egoísmo, sendo seguido por um terço das hostes racionais; buscavam agora destronar o Eterno,
desonrando-O com vis acusações.
Tendo revelado ao ser humano a dolorosa situação em que o Universo se encontrava, Yahwéh,
num gesto solene, mostrou-lhe duas altaneiras árvores que, carregadas de grandes frutos, se erguiam
em ambas as margens do rio que nascia do trono. A que se elevava à direita revelou o Senhor ser a
árvore da vida monumento do reino da luz. A que se erguia à outra margem revelou ser a árvore da
ciência do bem e do mal - símbolo da rebeldia.
Comendo do fruto da árvore da vida, o homem manifestaria sua submissão ao Criador, que é
Fonte de vida e luz. Comer da outra árvore seria entregar ao inimigo o domínio de Sião. O inevitável
resultado desse passo seria a morte eterna, não somente para o ser humano, mas para toda a criação,
que se reduziria ao caos sob a fúria da rebeldia.
Após contemplar demoradamente as duas altaneiras árvores, que externavam em seus frutos tão
infinita responsabilidade, Adão prostrou-se ante o Criador, dizendo: "Digno és Senhor de reinar sobre
o Universo, pois pela Tua sabedoria, amor e poder todas as coisas foram criadas e subsistem."
O sábado, emblema do triunfo divino, encheu-se de louvor. Todos os filhos da luz uniram-se ao
ser humano no mais harmonioso cântico de exaltação Àquele cuja grandeza é sem par.
Foi com espanto que Satã e seus seguidores testemunharam a grandiosa realização de Yahwéh.
Presenciaram com amargura a alegria dos fiéis ante a coroação do homem- acontecimento que
lançara por terra as fortes acusações que eles haviam levantado contra o governo divino. Cheios de
frustração e ira, consideravam agora sua triste condição. Quão terrível e humilhante era-lhes o
pensamento de verem seus planos de rebeldia desfazerem-se diante do Criador, semelhantes às
sombras daquela noite. Se pudessem, pensavam, encheriam o sábado de trevas, banindo da mente dos
súditos de Yahwéh qualquer esperança de vitória.
Finalmente, em suas considerações, Satã e seus liderados compreenderam que lhes restava uma
oportunidade: no meio do jardim do Éden, nas alturas de Sião, elevava-se, junto ao rio da vida, a
árvore da ciência do bem e do mal. Bastaria um gesto humano, nada mais, e teriam sob seu poder,
para sempre, o domínio cobiçado. Mas como seduzi-lo?
Animado ante a perspectiva de uma conquista, Satã procurou, com engenhosidade, arquitetar
um plano de abordagem. Sabia que, se falhasse em sua tentativa, todas as esperanças de triunfo ter-
se-iam diluído, desfazendo-se todos os seus sonhos de aventura. Concluiu que o engano haveria de
ser sua poderosa arma. Não fora através dele que conseguira dominar um terço das hostes celestes?!
Aguardaria, portanto, um momento propício para armar sua cilada.
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No Éden pairava a doce calma de uma perfeita paz. Por todos os lados os amáveis passarinhos
faziam ouvir seus alegres trinos em louvor constante ao Criador. Toda a natureza a florir parecia
proclamar um reino de eterna alegria. Os animais em união brincavam por toda parte, sempre
submissos ao homem, o senhor daquele paraíso encantador.
Tudo era felicidade para o casal; mas esta tornava-se mais intensa na viração daqueles dias
primaveris. O arrebol, que com sua beleza coloria o céu prenunciando as escuras noites, anunciava-lhes também o momento da visita diária de Yahwéh. Juntos, sob a luz de Sua presença, passavam
longo tempo em feliz conversação. Com ânimo, o casal contava ao Senhor as surpreendentes
maravilhas que iam descobrindo a cada dia na natureza. Deus, com carinho, descerrava-lhes o
significado de cada ser. Como ficavam gratos pelas lindas lições aprendidas a Seus pés! A cada dia
que passava, maior era o amor, o respeito e a admiração pelo grandioso Criador. Como Ele fora bom,
trazendo-os à existência e concedendo-lhes um lar tão cheio de delícias! Ao despertarem para as
alegrias de cada dia, vinham-lhes à lembrança as carícias e o doce canto de Yahwéh, que os fazia
adormecer todas as noites.
A vida de Adão e Eva no Éden não era de ociosidade. A eles foi recomendado o cuidado do
jardim. Sua ocupação não era cansativa, ao contrário, era agradável e revigorante. O Criador indicara
o trabalho como uma fonte de benefícios para o homem, a fim de ocupar-lhe a mente e fortalecer-lhe
o corpo, desenvolvendo-lhe todas as faculdades. Na atividade mental e física, o homem encontrava
um elevado prazer.
Era comum ao jovem casal receber visitas de seres celestes. Aos visitantes sempre tinham
novidades a relatar e perguntas a fazer. Passavam longo tempo ouvindo deles sobre as maravilhas do
reino de luz. Através desses visitantes, Adão e Eva passaram a ter amplo conhecimento da rebelião
de Lúcifer e de suas eternas conseqüências. Aos visitantes, Adão e Eva sempre pediam que lhes
ensinassem os harmoniosos cânticos celestiais. Como se deleitavam ao unirem as vozes ao coro
angelical!
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Em Sua onisciência, Deus tinha conhecimento do terrível intento do inimigo. Convocando as
Suas hostes principais, revelou-lhes com pesar o iminente perigo que pairava sobre o Universo. Satã
haveria de armar uma cilada, a fim de levar o homem a comer da árvore da ciência do bem e do mal.
Ante essa revelação, os filhos da luz ficaram temerosos, pois conheciam a tremenda facilidade de
Satã em enlaçar criaturas inocentes e atirá-las em suas malhas de morte.
No solene concílio, decidiram enviar, com urgência, mensageiros para advertirem o homem do
grande perigo. Dois poderosos anjos foram encarregados dessa decisiva missão.
Imediatamente, os mensageiros comissionados irromperam pelos portais de Jerusalém,
alcançando o seio do espaço infinito. Em instantes, transpuseram imensidões, cruzando galáxias no
percurso. Penetraram no túnel da constelação de Orion, aproximando-se do novo sistema. Podiam
agora divisar a pouca distância o planeta azul, onde o destino do Universo estava para ser decidido.
No Éden, havia descontração. O jovem casal continuava em suas inocentes atividades,
desfrutando o prazer de um viver feliz. Longe estavam de pensar que naquele momento todo o todos
os filhos da luz estavam tensos, pensando em seu futuro ameaçado. Viram então no límpido céu o
sinal da aproximação dos visitantes celestes e a eles ergueram os braços numa alegre saudação. Adão
e Eva admiraram-se, porém, por não verem no semblante deles a mesma alegria. Os visitantes
traziam na face uma expressão de anseio que eles não podiam entender. Tentaram mudar-lhes a triste feição, contando-lhes as novas descobertas feitas no paraíso. Os mensageiros, todavia, não tendo
tempo disponível como outrora, interromperam-nos com palavras de advertência. Satã haveria de
armar-lhes uma cilada, a fim de levá-los a comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Se
dessem ouvi dos à tentação, fariam sucumbir toda a criação no abismo de um eterno caos.
Os anjos lembraram-lhes que o reino lhes fora confiado como um sagrado depósito, devendo,
em uma vida de fidelidade, honrar Aquele que por amor esvaziou-Se, colocando-Se numa posição de
hóspede do ser humano. Adão e Eva deveriam ser firmes ante as insinuações do inimigo, pois assim
selariam a eterna vitória do reino da luz.
Falando-lhes da feliz recompensa que se seguiria ao seu triunfo, os anjos revelaram que era
plano de Deus a transferência de Jerusalém Celeste para a Terra. Ali, novamente acoplada ao paraíso,
permaneceria para sempre. E o homem, submisso ao Criador, reinaria pelos séculos sem fim sobre o
monte Sião, em meio aos louvores das hostes universais.
Mas tudo isso dependia inteiramente do posicionamento humano frente às tentações do
inimigo, que faria de tudo para arrebatar-lhe o reino.
Adão e Eva ficaram temerosos ao conhecerem os planos de Satã, mas foram consolados ao
saberiam que ele não poderia fazer-lhes nenhum mal, forçando-os a comer do fruto proibido. Se,
porventura, procurasse intimidá-los com seu poder, todas as hostes de Yahwéh viriam em seu socorro.
Os mensageiros da luz concluíram sua missão recomendando ao casal permanecerem
vigilantes, tendo sempre em mente a responsabilidade que sobre eles repousava. Não deveriam
separar-se um do outro, nem por um momento sequer, pois a sós poderiam ser seduzidos.
Adão e Eva, agradecidos pelas advertências dos anjos, uniram as vozes num cântico de
promessa em uma eterna vitória. Estavam certos de que jamais abandonariam o bendito Criador,
ouvindo a voz do tentador.
Animados ante a promessa humana, os dois mensageiros retornaram ao seio da Jerusalém
Celeste onde, junto às hostes santas, aguardariam com anseio o anelado triunfo. ----****----
Satã viu aproximarem-se do paraíso os mensageiros e ouviu o canto do homem prometendo
uma eterna vitória. Esse cântico fez com que sua inveja e ódio aumentassem de tal maneira que não
os pôde conter. Disse então a seus seguidores que em breve faria silenciar aquela voz irritante. Faria
tudo para transformar o louvor humano em blasfêmias ao Criador.
As hostes rebeldes ficaram curiosas para conhecer os planos de seu chefe, mas foram por ele
advertidas de que deveriam aguardar até que tudo ficasse para sempre decidido. Se o homem ouvisse
sua voz, comendo do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, seria vitorioso, possuindo para
sempre o domínio do Universo. Caso o homem resistisse, permanecendo fiel ao Criador, já não
haveria qualquer esperança para eles.
O paraíso parecia estar envolvido por uma eterna segurança, mas no semblante do homem
podia ser vista uma expressão de temor. Desde a partida dos anjos, Adão e Eva permaneciam
silenciosos, meditando com reverência sobre a tremenda responsabilidade de sua missão. Pensavam
na seriedade daquela iminente prova que haveria de selar o seu futuro e o de toda a Criação.
Animados, contudo, ante o pensamento da vitória, uniram mais uma vez as vozes num cântico que
expressava a certeza do triunfo anelado. Essa melodia baniu de suas mentes todo o medo de derrota e,
alegres, correram pelos prados verdejantes, acompanhados pelos fogosos animais que pareciam comemorar a grande conquista. Sentiam-se seguros em seu paraíso, totalmente esquecidos do perigo de um possível assalto.
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Satã, que observava atentamente o casal, percebeu estar chegando a sua oportunidade.
Aproximou-se de forma invisível do paraíso, e ficou esperando o melhor momento para armar sua cilada.
Inconsciente da presença do inimigo, o casal continuava em sua desprendida alegria, brincando
despreocupadamente com os animais. No semblante transtornado de Satã estampou-se um maldoso
sorriso, ao presenciar um descuido do casal: em sua exaltação, haviam deixado de atender a última
recomendação dos mensageiros, afastando-se um do outro. O astuto inimigo, não perdendo tempo,
apossou-se de uma serpente, a mais bela do paraíso, fazendo-a aproximar-se graciosamente de Eva.
Eva, que assentada no gramado brincava com os animais, percebeu a presença da atraente
serpente, cujo corpo refletia as cores do arco-íris. Ficou admirada ao vê-la colher flores e frutos do
jardim, depositando-os a seus pés. Agradecida, tomou-a nos braços, dedicando-lhe afeto.
Tendo conquistado a afeição da mulher, Satã, em sua astúcia, começou a atraí-la para junto da
árvore da ciência do bem e do mal. Sem se dar conta do perigo, Eva acompanhou a serpente até a árvore da prova.
Ali, tendo nos braços o inimigo velado, acariciou-o e disse-lhe palavras de carinho.
Tendo nos olhos o brilho da sedução, a serpente pôs-se a falar. Suas palavras eram cheias de
sabedoria e ternura e sua voz como a de um anjo. Eva mal pôde crer no que via. Sua alegria tornou-se
imensa por ter nos braços uma criatura tão fantástica. Passaram a conversar sobre muitas coisas: o
amor; as belezas do jardim; o poder do Criador. Eva ficou admirada ante o conhecimento tão vasto da
serpente, que discorria com maestria sobre qualquer assunto. Envolvida por essa experiência, Eva
esqueceu-se completamente de seu companheiro. Nem sequer passavam pela sua mente as advertências dos anjos.
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Adão, inteiramente esquecido dos conselhos dos mensageiros celestes, havia se afastado na
companhia de alguns animais. Depois de certo tempo, sobreveio com ímpeto em sua mente a
lembrança das advertências recebidas. Soaram em seus ouvidos com clareza as últimas palavras
proferidas pelos anjos: "Não se afastem um do outro... Não se separem nem por um instante, pois é
perigoso." O seu coração pulsou forte por não ver Eva a seu lado. Ergueu então a voz num grito
ansioso. Sua voz, ao ecoar pelas abóbadas do paraíso, contudo, não trouxe consigo uma resposta. O
silêncio quase o sufocou. Em sua aflição pôs-se a correr de um lado para outro, procurando-a, em
vão. Nessa ansiosa busca, sentiu a brisa afagar-lhe os cabelos e recordou seu primeiro sonho. Essa
lembrança, no entanto, desfez-se ante o pensamento do perigo que os ameaçava.
Com a mente tomada por um grande senso de culpa, Adão apressou o passo na aflitiva procura.
Onde estaria a sua amada? A envolveria a tempo em seus braços, livrando-a de cair? Mais uma vez
ergueu a voz num grito ansioso que repercutiu por todo jardim: "Eva, onde você se encontra?"
Aguardou uma resposta, mas ouviu somente um eco vazio que o desesperou. Lembrou-se da árvore
da ciência do bem e do mal; ali era o único lugar em que sua companheira poderia ser iludida.
Esperando obstruir a única oportunidade do inimigo, avançou em direção ao lugar da prova. Seu
coração pulsou forte ao contemplar ao longe a copa da árvore proibida.
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Com a serpente em seus braços, Eva interrogou-a a respeito de muita coisa. Maravilhou-se ao
perceber que a serpente a sobrepujava grandemente em conhecimento. Cheia de curiosidade, perguntou à serpente:
- Onde está a fonte de seu tão grande saber? Responda-me, pois quero também possuí-la.
Sem perder tempo, Satã, apontando para a árvore da ciência do bem e do mal, respondeu:
- Ali está a fonte de todo meu saber.
Ele conta então uma mentirosa história: disse que era uma serpente como as demais, comendo
dos frutos do paraíso. Provando certo dia daquele fruto proibido, recebeu, como que por encanto, todas as virtudes.
Olhando para a árvore da ciência do bem e do mal, Eva ficou surpresa e confusa.
Privaria o Criador em seu amor algo tão bom às suas criaturas?!
Vendo-a surpresa, Satã perguntou:
- É assim que Deus disse: Não comereis de todas as árvores do jardim?
Eva, inquieta, respondeu:
- Dos frutos das árvores do jardim comemos, mas do fruto dessa árvore que você diz ser fonte
de sabedoria, disse Deus: "Não comereis dele, para que não morrais."
A serpente em tom de desdém disse:
- Isso é falso. Se fosse assim, eu teria morrido. Certamente Yahwéh os proibiu de comer dessa
árvore para impedir que o homem venha a se tomar como Ele, conhecendo todas as coisas.
As palavras sedutoras da serpente causaram confusão na mente de Eva. Em quem confiaria?
Tinha em mente a lembrança da ordem do Criador e de sua sentença, mas ao mesmo tempo tinha
diante de si uma prova palpável que O contradizia. Atordoada, começou a duvidar do caráter de
Yahwéh.
Num desafio, a serpente colheu frutos da árvore proibida e passou a saboreá-los. Colocando um
fruto nas mãos da mulher, incentivou-a a comer, dizendo:
- Não disse Yahwéh que se alguém tocasse nesse fruto morreria?
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Um completo silêncio pairava sobre o Universo. Em cada planeta habitado, os filhos da luz
contemplavam impotentes aquela angustiante cena. O futuro deles estava em jogo.
Em Jerusalém havia grande comoção. Poderosos anjos apresentaram-se diante do Criador,
solicitando permissão para esmagarem o covarde inimigo, oculto naquela serpente. Yahwéh, contudo,
impediu-lhes tal ação. Se o uso da força fosse a solução, já o teria aplicado. Deviam respeitar o livre-arbítrio concedido ao homem, podendo ele manifestar sua escolha sob a tentação do inimigo.
Os filhos da luz sofriam imensamente ao verem a mulher duvidando d'Aquele que tão
bondosamente lhes dera a vida e a oportunidade de reinarem naquele paraíso. Como poderia duvidar
de quem lhes dedicava tanto amor?!
Adão, que numa forte esperança de assegurar a acalentada vitória apressava-se em sua corrida,
contemplou ao longe sua amada, assentada junto à árvore da prova. O que fazia Eva naquele lugar tão
perigoso?!
Um pressentimento horrível lhe sobreveio, ao lembrar-se mais uma vez das advertências
recebidas, mas procurou bani-lo como pensamento de que alcançaria sua esposa antes que algum mal lhe ocorresse.
Eva vacilava em sua convicção ao contemplar o fruto em suas mãos. Por alguns momentos o
futuro pareceu-lhe sombrio e aterrador, mas venceu esse sentimento, pensando nas glórias que
haveria de conquistar ao comer aquele fruto. Ainda um tanto indecisa, ergueu vagarosamente as mãos
até tocar o fruto com os lábios.
Os súditos do reino da luz, estremecidos, inclinaram-se tomados por grande espanto. Parecia
quase impossível, àquela altura, a mulher voltar atrás.
Enquanto pálidos os fiéis indagavam sobre uma possível esperança, presenciaram com horror a
terrível decisão de Eva: resolvera romper para sempre com o Criador, tornando-se cativa da morte.
Yahwéh, que em silente dor contemplava aquela cena de rebeliã
o, curvou a fronte tendo a face
banhada de lágrimas. Não podia suportar a dor daquela separação.
Os fiéis, que em pânico julgavam-se vencidos, foram conscientizados de que nem tudo estava
perdido. Se Adão resistisse à tentação, permanecendo fiel a Yahwéh, ele selaria a grande vitória. Eva,
que fora vítima de um engano, poderia ser conscientizada de seu erro, sendo favorecida com o perdão divino.
Quando Adão em sua angustiosa corrida alcançou o lugar da provação, já era tarde demais.
Assentada junto ao rio, Eva saboreava despreocupadamente o fruto proibido. Adão estremeceu. Seria
mesmo o fruto da prova? Num gesto de esperança olhou para a árvore da ciência do bem e do mal,
mas em pranto reconheceu a triste condenação. Cheio de tristeza contemplou sua esposa, mas não
encontrou palavras para despertá-la para tão amarga realidade. Em completo desespero, ergueu a voz
numa dolorosa exclamação: "Eva, Eva, o que você está fazendo!"
Ao comer do fruto proibido, a mulher foi tomada por emoções que a fizeram imaginar haver
alcançado uma esfera superior de vida. Ao ouvir a voz de seu esposo, ainda tomada pelas ilusórias
emoções, ergueu a fronte estampando um sorriso, mas surpreendeu-se ao vê-lo chorando.
Com profunda amargura, Adão procurou saber a razão que a levara a rebelar-se contra Yahwéh.
Eva, prontamente, passou a contar-lhe a fantástica história da sábia serpente.
Satã sabia que essa história de serpente jamais convenceria o homem a comer do fruto da árvore proibida. Precisava encontrar uma maneira sutil de levá-lo a selar sua sorte seguindo os passos de sua esposa.
Tendo Eva sob seu poder, resolveu fazer dela o objeto tentador. Aguardaria o momento oportuno para enlaça-lo.
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No dia em que dela comerdes, certamente morrereis. A lembrança desta sentença deixava Adão
muito aflito. A expectativa de ver sua amada perecendo em seus braços, era demais para suportar.
Esta aflição, contudo, foi diminuindo, ao ver que ela continuava feliz e carinhosa ao seu lado, como
se nenhum mal lhe houvesse acontecido. Aliviado, Adão voltou a sorrir, correspondendo aos afetos
de sua companheira. Rendia-se às mais doces emoções, longe de saber que era o inimigo quem o envolvia naqueles abraços.
Nesse momento de enlevo, Eva começou a falar-lhe de sua experiência com a ciência do bem e do mal.
Falou-lhe dos tesouros da sabedoria que lhe haviam sido abertos.
Em seu novo reino, viveria muito feliz.
Entretanto, essa felicidade seria incompleta sem a participação de seu esposo.
Falou-lhe da impossibilidade de retroceder em seus passos, e insistiu para que ele a seguisse.
Depois de falar-lhe de sua decisão, Eva, com um doce sorriso, estendeu-lhe as mãos contendo
um fruto, pedindo-lhe que o comesse numa demonstração de seu amor por ela.
Com a voz tentadora em seus ouvidos, Adão assentou-se no gramado em profunda reflexão.
Sua face tornou-se novamente pálida e suas mãos trêmulas. Temia rebelar-se contra o Criador, mas
ao mesmo tempo compreendia que não conseguiria viver separado de sua companheira, a quem
amava com infinito amor. Eva era carne de sua carne, a extensão de seu ser.
Sentia-se angustiado ao ter de tomar uma decisão tão séria.
A palidez do rosto de Adão refletiu-se no semblante de todos os fiéis de Yahwéh. Ouviram a
insinuação do inimigo e perceberam com horror a vacilação do homem.
A indecisão de Adão deixava-os desesperados.
Obedecesse ele àquela proposta de Satã, toda felicidade seria eternamente banida.
Nas decisões do ser humano estava o destino de todo o Universo. Atenderia ele ao apelo de Satã?
Depois de intensa luta íntima, Adão olhou para sua companheira; a ela unira-se em promessas
de uma eterna entrega. Não a deixaria só agora. Partilharia com ela os resultados da rebelião. Tomou
então das mãos de Eva um fruto e, num gesto apressado, levou-o à boca.
Procurando abafar a voz de sua consciência, que lhe falava de uma eterna perdição, Adão
lançou-se nos braços de sua esposa, desfrutando o alto preço de sua rebelião.
Satã, com brados de triunfo, deixou o paraíso, voando rapidamente para junto de suas
inumeráveis hostes, que aguardavam ansiosas o resultado de tão arriscada tentativa. Ao saberem da
desgraça humana, uniram-se numa estrondosa festa. Sentiam-se seguros. Sião agora lhes pertencia
por direito, podendo lá estabelecer um reino eterno, jamais sendo molestados pelas leis de Yahwéh.
----****----
Em todo o Universo os filhos da luz sofriam e pranteavam a derrota. Nunca houvera tanta
tristeza e horror ante o futuro. As vozes que viviam a entoar louvores ao Criador proferiam agora
lamentações.
Yahwéh, que vencido por infinita dor prostrara -Se em pranto ante a queda do homem, não
fora, contudo, surpreendido. Antes mesmo de criar o Universo já havia previsto esse triunfo da
rebeldia e, em Sua sabedoria e amor, idealizara um plano de resgate que O envolveria num imenso
sacrifício. Enxugando as lágrimas de Seu pranto, pôs-Se a agir poderosamente em favor de Seus fiéis
aflitos, impedindo-os de caírem nas mãos dos inimigos. Nessa misteriosa intervenção que
aparentemente depunha contra a justiça, Yahwéh ordenou que Seus mais poderosos anjos
circundassem imediatamente o jardim do Éden, impedindo que Satã tomasse posse do monte Sião.
Consoladas ante a manifestação divina, as potentes criaturas, em pronta obediência, romperam o
espaço infinito, circundando em instantes o paraíso, no seio do qual o ser humano, já transtornado
pelo pecado, vivia o negror de uma noite que seria longa e cruel.
Sendo a autoridade de Yahwéh fundamentada na justiça, de que maneira poderia justificar Suas
ações diante dos inimigos? Não entregara por Sua vontade o reino ao homem, e esse por livre escolha
não o submetera a Satã? Enquanto surpresas as criaturas racionais consideravam as ações decisivas
de Deus, ouviram Sua potente voz que, repercutindo por toda a criação, trazia a revelação do grande
mistério - revelação tão maravilhosa que a partir daquele momento, por toda a eternidade, ocuparia a
mente dos fiéis, sendo tema para as mais doces meditações.
Yahwéh falou primeiramente sobre a terrível condenação que pendia sobre o homem e toda a criação.
Disse que, ao se desligar da Fonte da Vida, o homem havia se precipitado em tão profundo
abismo que não poderia ser alcançado pelo Seu braço de justiça e poder.
Humilhado e torturado pelas garras do inimigo, não restava ao homem outra sorte além da morte - fruto doloroso de sua
espontânea rebelião.
Considerando a situação humana, as hostes da luz não viam possibilidades de triunfo.
Sabiam que só o homem poderia retomar o domínio do inimigo, devolvendo-o ao Criador. Mas o ser humano,
eternamente escravizado em sua natureza, seria incapaz de tal vitória.
Com voz melodiosa e cheia de ternura, Deus revelou o plano da redenção, dizendo:
"Na verdade, o homem colherá o fruto de sua rebelião numa terrível morte. Não posso, com o meu poder,
mudar-lhe a sorte. Se assim agisse, seria injusto diante de meu decreto. Mas farei cair toda a
condenação sobre um Substituto que surgirá na descendência humana. Esse Homem não trará em
suas mãos as algemas da morte, sendo inocente e incontaminado em Sua natureza. Como
representante da raça humana, enfrentará Satã e o vencerá. Após triunfar nessa batalha, provando que
o amor é mais forte que o egoísmo, que a verdade é mais forte que a mentira, que a humildade é mais
poderosa que o orgulho, o fiel Substituto erguerá as mãos vitoriosas não para saudar a grande
conquista, mas para tomar das mãos da humanidade escravizada a taça de sua condenação. Sorverá
assim, submisso, o cálice da eterna morte. Esse imenso sacrifício abrirá aos seres humanos uma
oportunidade de serem redimidos, voltando aos braços do Criador, juntamente com o domínio
perdido."
As hostes, surpresas ante a revelação de Yahwéh, indagaram a identidade d'Esse Substituto. O
Criador, com um sorriso amoroso, disse-lhes:
"Eu serei esse Homem. O Meu Espírito repousará sobre uma virgem, e nela será gerado um Filho Santo. Esse menino será divino e humano. Em sua humanidade, ele será submisso à divindade que n'Ele habitará. Os remidos verão n'Ele o Pai da Eternidade, o Criador e Redentor, o Rei dos reis.
O Seu nome será Yoshua (nome hebraico que traduzido significa Yahwéh salva)."
Assumindo a natureza humana, Deus poderia pagar o alto preço do resgate, morrendo em lugar dos pecadores.
As hostes da luz ficaram emudecidas ao conhecer o plano do Criador. O pensamento de verem-nO submeter-Se a tão penoso sacrifício, a fim de redimir o domínio perdido, era demais para
suportarem. Não havia, contudo, outra esperança de vitória, a não ser através dessa amorosa entrega.
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Após desfrutar o alto preço do pecado, o jovem casal sentiu-se mal. Inicialmente sentiram um
grande vazio no coração, que logo foi preenchido pelo remorso e pela tristeza. Perceberam que,
inspirados pela cobiça, haviam selado sua triste sorte e a de toda a criação. Parecia-lhes ouvir ao
longe o gemido de um Universo vencido.
O sol, que os enchera de vida e calor naquele dia, ocultava-se no horizonte, anunciando-lhes uma negra noite.
O arrebol, que até ali anunciara-lhes o feliz encontro com o Criador, parecia
envolve-los numa sentença de que jamais despertariam para um novo dia. Não ousavam sequer olhar
para cima, temendo ver cair sobre eles o raio do juízo que os reduziria a pó. Com o olhar voltado para
o frio solo, vinha-lhes à lembrança a sentença: "No dia em que dela comerdes, certamente morrereis."
Desesperadas lágrimas rolavam em seus rostos ao aguardarem o trágico fim.
Ao considerar o motivo de sua rebelião, Adão começou a recriminar sua esposa por ter dado
ouvidos à serpente. Eva, por sua vez, procurando desculpar-se, lançou a culpa sobre o Criador,
dizendo: "Por que Yahwéh permitiu que a serpente me enganasse?!" O amor que reinava no coração humano desaparecia, dando lugar ao orgulho e ao egoísmo, que
se fundiam em ressentimentos e ódio. Sua natureza já não era pura e santa, mas corrompida e cheia
de rebeldia. Tudo estava mudado. Mesmo a brisa mansa que até ali os havia banhado em carícias
refrescantes, enregelava agora o culposo par. As árvores e os canteiros floridos, que eram seu deleite,
consistiam agora em empecilhos ao caminharem sem rumo naquela noite.
O propósito de Satã em encher o sábado de trevas parecia haver se cumprido. Naquela noite,
não existia sequer o reflexo prateado do luar para falar-lhes de esperança. As estrelas cintilantes,
suspensas no escuro céu, estavam ofuscadas pela dor. Baixavam sobre o mundo as trevas de uma
longa noite de pecado - sombras sob as quais tantos se arrastariam sem esperança de um alvorecer.
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A noite já ia alta e as trevas pareciam envolver o triste casal em eternas sombras. Nem sequer
cogitavam em suas poucas palavras, sufocadas pela agonia, de um alvorecer. Cabisbaixo, tateavam
daqui para ali, na expectativa do juízo iminente, que os reduziria ao frio pó, esquecido sob aquelas
trevas sem fim.
Surgiu repentinamente um brilho no céu, que ia aumentando à medida que se aproximava da
Terra. O casal estremeceu, pois sabia que era o Criador que vinha dar-lhes o castigo. Vencidos pelo
pânico, puseram-se a correr, distanciando-se do monte Sião, o lugar da vergonhosa queda. Justamente
para ali viram o Criador dirigir-Se. Eles, que sempre corriam ao encontro do amoroso Pai, atraídos
por Sua luz, fugiam agora desesperados em busca de lugares escuros, de densa floresta.
Yahwéh, movido por infinito amor, passou a seguir os passos do casal fugitivo. Enquanto
caminhava, chorava ao lembrar os momentos felizes que havia passado junto a eles naquele paraíso.
Como tudo se transformara! Seus filhos não conseguiam mais ver n'Ele um Pai de amor, mas alguém
que, irado, buscava castigá-los.
Movido por forte anseio de abraçar Seus filhos humanos, Deus fez ecoar a voz numa
indagação: "Adão, onde vocês se encontram?" Sua voz, ao soar em meio às trevas, trazia consigo
somente um eco vazio que falava de ingratidão e rebeldia. Como desejava envolver o casal num
ardoroso abraço, e com palavras de carinho confessar-lhe que Seu amor era o mesmo!
Ao ver Seus filhos fugindo de Sua presença, Yahwéh foi tomado de grande dor. Ante Seu olhar
mareado de lágrimas, estendia-se o futuro da raça humana. Quantos, enganados por Satã, fugiriam de
Sua presença no decorrer da longa noite de pecado, julgando-No um Senhor tirano, que vive
buscando falhas e fraquezas nos pecadores, a fim de castigá-los! O Criador, todavia, não desistiria de
procurálos pelos vales sombrios do reino da morte, até conquistar um povo arrependido.
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